Para discutir o conceito de competência, assumimos o pressuposto teórico de que o seu significado não é essencial. Ele é produzido de diferentes modos nos contextos em que é mobilizado. As citações abaixo são exemplos que mostram a polissemia do termo.
Entendemos por competências os esquemas mentais, ou seja, as ações e operações mentais [...] que, mobilizadas e associadas a saberes teóricos ou experienciais, geram habilidades ou um saber fazer1.
Competências são capacidades que se apóiam em conhecimentos2.
Uma competência é um “saber fazer”, com “saber” e com “consciência”3.
Capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles4.
Uma pessoa é competente quando é capaz de saber, saber-fazer e saber-ser5.
No modelo de competências importa não só a posse dos saberes disciplinares escolares ou técnico-profissionais, mas a capacidade de mobilizá-los para resolver problemas e enfrentar os imprevistos na situação de trabalho6.
Nesses excertos, a noção de competência é associada, pelos diferentes autores, entre outras questões, aos esquemas de operações mentais, à capacidade, ao fazer com saber, ao conhecer as conseqüências, à resolução de problemas, à mobilização, aplicação e contextualização dos conhecimentos e à formação profissional.
É possível construir outros entendimentos quanto à noção de competência, relacionando-a com a capacidade de articular, mobilizar e aplicar um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes em um contexto específico. Mobilização e aplicação são conceitos imbricados. Ambos extrapolam as ações físicas, referindo-se também a ações de pensamento. A aplicação é a expressão da mobilização num dado contexto. A partir desse conceito, aponta-se a importância dada a essas três dimensões, que devem necessariamente articular-se para formar um profissional competente.
A competência não pode ser transmitida. Ela deve ser construída de forma ativa. Os modelos formativos propostos serão apenas uma referência para o desenvolvimento das competências dos alunos, tendo em vista que, em última instância, cada sujeito imprimirá sua marca pessoal ao seu processo de aprendizagem. Entre os muitos profissionais que venham a ser formados a partir de uma dada concepção curricular, haverá semelhanças, mas cada um terá a sua singularidade.
Uma competência pode estar desenvolvida em diferentes níveis de complexidade e nunca é um produto final, acabado, mas um processo em permanente desenvolvimento.
As competências e as habilidades são inseparáveis da ação, mas exigem domínio de conhecimentos. As competências pressupõem operações mentais, capacidades para usar as habilidades, emprego de atitudes, adequadas à realização de tarefas e conhecimentos. Competências se constituem num conjunto de conhecimentos, atitudes, capacidades e aptidões que habilitam alguém para vários desempenhos da vida. Habilidades se ligam a atributos relacionados não apenas ao saber-conhecer, mas ao saber-fazer, saber-conviver e ao saber-ser.
A competência é então constituída por várias habilidades. Pode, ainda, ser definida como saber fazer bem o que é necessário e desejável no âmbito profissional e se revela na articulação das dimensões técnica e política perpassadas pela ética. Contudo, uma habilidade não "pertence" a determinada competência, pois uma mesma habilidade pode contribuir para diferentes competências.
1 BERGER FILHO, Ruy. Educação profissional no Brasil: novos rumos. Revista Ibero-americana de Educação, N. 20, maio/ago. 1999. Disponível em: https://rieoei.org/historico/documentos/rie20a03.htm
2 RIOS, Terezinha. Compreender e ensinar: por uma docência de melhor qualidade. São Paulo: Cortez, 2003. p. 78
3 AGUERRONDO, Inês. El nuevo paradigma de la educación para el siglo. Disponível em: https://www.oei.es/historico/administracion/aguerrondo.htm
4 PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, 1999
5 DELORS, Jacques (org.). Educação: um tesouro a descobrir - relatório para a Unesco, da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. São Paulo: Cortez, 1998.
6 DELUIZ, Neise. O modelo das competências profissionais no mundo do trabalho e na educação: implicações para o currículo. Informativo SENAC BTS 273.
Extraído do texto O CONCEITO DE COMPETÊNCIA E SEUS DESDOBRAMENTOS DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS NA UNISINOS. Disponível em: http://unisinos.br/blogs/formacao-docente/files/2013/01/Ensino-por-competencias-na-Unisinos.pdf